Sobre a formação cultural paulista: um percurso brilhante
Carlos Guilherme Mota
O Espetáculo da Cultura Paulista é um livro que está destinado a se tornar obra de referência nas discussões sobre o Brasil contemporâneo. Fruto de um doutorado no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, na disciplina de História Social das Ideias, sob minha orientação, o estudo revela um autor maduro e vivido, que sabe do que está falando, pois conheceu muitos personagens e problemas do período que analisa.
A tese versa sobre a formação cultural paulista, examinada pelo ângulo da História das vicissitudes do teatro e da televisão em São Paulo, abrangendo o complexo e fecundo período das décadas de 1940 e 1950. Em estilo fluente e agradável, pode ser lida como importante capítulo da História de São Paulo, de sua busca de identidade em meados do século XX, época decisiva de mudança de mentalidades, de tecnologias no campo da comunicação, e de ampliação dos conceitos de cultura, de política, de sociedade. Ao longo do livro, o leitor mais atento poderá notar – não sem alguma vertigem – a profunda alteração do próprio conceito de tempo histórico, observável naquelas duas décadas efervescentes.
Acompanhando a intensa industrialização e urbanização (com o correspondente desenvolvimento tecnológico dos meios de comunicação), a ampliação do circuito financeiro-comercial e a expansão da rede universitária, novas formas e conceitos de produção político-cultural se impuseram. São Paulo se “moderniza”, para utilizarmos uma noção hoje posta em desuso, mas corrente da época, e se internacionaliza, afirmando-se no cenário nacional – falava-se em “colonialismo interno” nessa época, com a “metrópole” aqui – e articulando-se como centro cosmopolita.
Com o teatro e a televisão (mas também com o rádio – objeto de um capítulo precioso, “A Cidade nas Ondas do Rádio” – e o cinema), assiste-se, e não por acaso, ao início de uma crítica renovada e de um periodismo moderno, que atingirão um patamar bastante elevado no fim da década de 1950. Quem não se lembra da revista Senhor ou do “Suplemento Literário”, dos sábados, no Estadão? Ou da fermentação político-estético-cultural que alimentava os bares (como o Nick Bar, o Paribar, o Flamingo)
e bistrôs nas imediações da Biblioteca Municipal (então dirigida por Sérgio Milliet), ou no restaurante Gigetto? Dos comentários – por exemplo – de um Anatol Rosenfeld?
Nesse processo, São Paulo torna-se o cenário de intenso movimento de redefinição de valores, conflitos e novas combinações entre estamentos, classes e – também – remanescentes castas sociais, como na obra de um Jorge Andrade, de um Gianfrancesco Guarnieri. A releitura que se faz então da obra de Monteiro Lobato talvez seja o exemplo mais eloquente dessa conjunção entre arte dramática, literatura e novas tecnologias da comunicação, e nessa quadra David José (o “Pedrinho”) tem um papel singular. Como singular e emblemático será o seu percurso, pois de “Pedrinho” passará a “Tiradentes”, no Teatro de Arena, já na década de 1960. E, depois, a estudante, pesquisador e professor de Ciências Sociais.
Um passar de olhos pelos títulos das peças e programas daqueles anos é suficiente para notarmos essa lenta e incompleta passagem de uma sociedade oligárquico-estamental-escravista para uma sociedade de classes, embora com seus contornos ainda pouco definidos. Com efeito, os embates político-ideológicos se exacerbaram, e as diferenças de concepção de arte, de representação, de comunicação e de mundo revelam a intensidade desse período, em que se assiste na História a processos de transformação profundos, como a descolonização, as revoluções socialistas no Terceiro Mundo, a crítica à Guerra Fria, o nascimento das teorias do subdesenvolvimento, a internacionalização acelerada (que hoje toma o nome de “globalização”).
Na metrópole paulistana, os dilemas não são menores, como se observa no capítulo polêmico e revelador da Introdução, “Pensamento Marxista e Pensamento Democrático-liberal no Universo Cultural Paulista”, que abre um rico filão de problemas e temas para pesquisas e teses futuras.
As metamorfoses e inovações no teatro e o impacto da televisão na vida da urbe excitam o “temperamento da Metrópole”, para usarmos a feliz expressão do historiador Richard Morse, em sua Formação Histórica de São Paulo (ele também homem de teatro quando de sua chegada ao Brasil, nos anos 1940).
Sem exagero, pode-se dizer que o teatro e a televisão consagram a maioridade de nossa cidade. Não por acaso, também, a cidade foi entrando para o circuito internacional, se desprovincianizando, recebendo ao longo dessas décadas a visita de personagens marcantes da cultura contemporânea, como Robert Frost, Graham Greene (acompanhado pelo jovem historiador Leslie Bethel), Fernand Braudel, Lucien Febvre, Roger Bastide, William Faulkner – que numa certa manhã acordou de ressaca no Hotel Terminus, da avenida Ipiranga, certo de ainda estar em Chicago, e ter perdido o voo para o Brasil – e de um sem-número de atores e atrizes, diretores de teatro e cinema, cantores.
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Uma visão muito particular da história da formação cultural paulista, eis o que nos traz David José, o ator de talento e ele próprio personagem de uma época de grandes transformações. Também conhecido como professor José Lessa Mattos Silva, do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas, onde leciona desde 1984, ele nos introduz de modo crítico e ao mesmo tempo cordial aos principais personagens, as constelações, as primeiras “estações” de TV (como a famosa PRF-3, TV Tupi-Difusora), as artes do espetáculo profissional e amador, as inflexões das elites em direção às artes e os esforços para sua difusão. E sublinha o papel de uma figura-chave como Júlio Gouveia, ilustrado e politizado, os locutores das Arcadas (Homero Silva, Maurício Loureiro Gama, Enéas Machado de Assis), de poucos mas decisivos homens-sábios como Túlio de Lemos, e tantos outros personagens. Estes, como a notável e vibrante Tatiana Belinky, circulam pelo texto de David José, ele próprio destacado personagem infantil, depois juvenil, hoje universitário maduro.
Curioso e raro percurso, pois agora é o universitário de mérito que, avisadamente e com instrumentos adequados, se volta para nos fazer compreender esse tempo de sua/nossa formação, trazendo uma memória viva, crítica, construtiva. Memória suavemente crítica, límpida como é o “David José”, ou o professor José Lessa, excelente escritor.
A leitura do livro desperta ainda o interesse do leitor para uma série de outras pesquisas que poderiam (e deverão, espero) ser realizadas, como, por exemplo, as contribuições dadas pelos músicos, a maior parte italianos, que na época atuaram no rádio e na televisão. Ou o surgimento, já na década de 1960, da indústria de telenovelas, com a TV Excelsior, tão marcante e, logo em seguida, com a Rede Globo, que alterou a vida do país. Ou ainda, expressão das exigências de uma burguesia mais educada e cosmopolita, o nascimento das grandes companhias teatrais, a partir do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), grupo-matriz decisivo para o surgimento de outras formas e conceitos de teatro (por vezes até antagônicos), de cinema, de cultura enfim.
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Finalmente, eu gostaria de relembrar alguns traços pouco conhecidos desse autor, que desenharam sua trajetória como intelectual, ator e como pessoa. José Lessa Mattos Silva é filho de Escola Pública, nomeadamente o Colégio Paes Leme, tendo se formado em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, no ano crítico de 1968. Licenciou-se também em Sociologia, pela Universidade de Paris-VIII, Vincennes, em 1969/1970.
Sob a orientação da professora Annie Goldmann, tornou-se mestre em Sociologia da Cultura, pela Universidade de Paris-X, Nanterre, em 1973, com a tese La Question de la culture nationale au Brésil. Introduction à une étude sociologique. Dentre seus cursos de especialização e Estudos Superiores, contam-se, em Paris, os dos professores Jean-Claude Passeron, Hélène Clastres, Pierre Francastel, Edgar Morin, Lucien Goldmann, Bernard Dort (do Institut d’Études Théâtrales de la Sorbonne). E, em São Paulo, de Henrique Murachco (Língua Grega). Como pesquisador de campo e Técnico Docente de Pesquisa, trabalhou com os professores Aziz Simão, Luís Gonzaga Belluzzo e Luís Pereira, dentre outros. No exterior, marcou sua presença em festivais internacionais de teatro, como os de Nancy, e, como jornalista em tempos difíceis, em boletins para o Brasil (em radiodifusão em ondas curtas, de Paris e da Alemanha, entre 1969-1973), e diretor de programas para a TV, o principal dos quais foi Crítica e Autocrítica (TV Bandeirantes).
Como ator, sua carreira é notável. Desde os tempos de ator infantojuvenil, do “Grilo Falante”, do seriado As Aventuras de Pinócchio, levado ao ar em 1954 pela TV Tupi-Difusora, Canal 3, São Paulo, com direção de Júlio Gouveia e Tatiana Belinky; do “Pedrinho”, do Sítio do Picapau Amarelo (1955–1958); do Kim (de Rudyard Kipling); e do Oliver Twist (de Charles Dickens), David José marcou uma nova concepção de teatro na TV. Tais seriados serviram de teste para a nova fase que viria. Também o TV de Vanguarda (teleteatro semanal) e o Grande Teatro Tupi definiram uma época, e neles esteve David de 1954 a 1966. Como ator de telenovelas e teleteatros, registram-se várias participações, desde Ana Terra, Um Certo Capitão Rodrigo, Cara a Cara até Rosa Baiana e O Fiel e a Pedra (este, de Osman Lins). Neles, contracenou com Sérgio Cardoso, Carlos Zara, Leila Diniz, Irene Ravache, Fernanda Montenegro, Renato Borghi, Marco Nanini, Gianfrancesco Guarnieri, Leo Vilar, para citarmos alguns nomes. Trabalhou também como adaptador e argumentista e como diretor de teleteatros e telenovelas, como no seriado O Comprador de Fazendas (de Monteiro Lobato), pela TV Cultura, em 1981.
No teatro, como ator, quem não se lembra de Damis, em O Tartufo, de Molière, dirigido por Augusto Boal, em 1964? A partir de então, a lista se encomprida e se adensa, com Arena Conta Zumbi (1965/66), Arena Conta Tiradentes (1967), Volpone (1977), O Rei David (1978), É… (1979), Oedipus Rex (1981/82), Werther (1983)… E no cinema, registram-se O Sobrado (1955), em que ele faz o menino Rodrigo Cambará, e depois o menino Lampião, em Lampião Rei do Cangaço(1963), Domingo no Parque (1968), Os Marginais (1968), Celeste (Paris, 1970), Doramundo (1977; do qual foi também roteirista), Os Amantes da Chuva (1978), Uma Estranha História de Amor (1978), O Homem do Pau-Brasil (1980), Nasce uma Mulher (1982).
Muito haveria ainda a dizer de David José / José Lessa Mattos Silva. Creio que ele se transformou num personagem paulistano, desses que ajudam a definir o lado bom e suave, nada obstante crítico, de nossa metrópole complexa, por vezes exasperante e desvairada. Nem sempre generosa para com seus cidadãos. Mas duas lembranças me ocorrem quando penso nos caminhos trilhados por ele.
Dois episódios para mim muito significativos, que ajudam a definir o personagem / ator / professor / homem. O primeiro foi em 1967, quando ele fazia o papel do Tiradentes. Procurou-me para que, na qualidade de professor de sua turma, desse algumas informações sobre o alferes e inconfidente, pois estava embaraçado, dividido, angustiado. O que me surpreendeu, pois David José trazia uma versão nova, refrescante do bom alferes. Com uma bela bacalhoada na Rua da Consolação, discutimos durante longas horas.
Todo o processo revolucionário, ambos saindo com mais dúvidas sobre os papéis de Tiradentes, de Tomás Antônio Gonzaga (o excelente poeta, que tanto ou mais nos impressionava) e sobre os destinos do Brasil que – não poderíamos adivinhar? – caminhava para o golpe de 1968.
O segundo episódio, foi um continuum entre o David José maduro, aluno / colega / debatedor empenhado durante o curso de Pós-Graduação em História Social do Departamento de História da FFLCH/USP e o aguerrido professor / defensor deste livro-tese. Creio que foi a defesa de tese de doutorado mais empenhada, articulada, crítica e gentil da qual participei como orientador (em verdade, um interlocutor apenas, dentre os muitos que José Lessa sabe cultivar).
Naquele dia e naquele contexto, pude entender o sentido pleno do conceito de prática-teórica e de engajamento que tantos de nós, dentro e fora da universidade, cultivamos, perseguimos e nem sempre encontramos. David José, prático-teórico, continua a nos evocar o tempo em que o frescor das ideias, da polêmica, da representação e da pesquisa nos encantava, consolava e orientava. E pude perceber que nem tudo está perdido: o espetáculo tem que continuar.
Pontal da Cruz, São Sebastião/ Março de 2002.
